No ano passado, as sindicâncias do programa contribuíram para a resolução de 552 casos de desaparecimento
Em 2025, o Estado do Amazonas registrou 982 pessoas desaparecidas, o equivalente a três por dia. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), foram 576 homens e 406 mulheres; sendo 681 pessoas com 18 anos ou mais, e 301 abaixo dessa faixa etária. Mais que números anuais de segurança pública, essas histórias representam a busca angustiante de familiares e amigos por entes desaparecidos.
A Lei nº 13.812, que instituiu a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e trata sobre esses casos, é recente, de março de 2019. Segundo a legislação, considera-se desaparecido “todo ser humano cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa de seu desaparecimento, até que sua recuperação e identificação tenham sido confirmadas por vias físicas ou científicas”. O artigo 3º da lei também assegura “prioridade com caráter de urgência pelo poder público” na procura e localização dessas vítimas.
O Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) possui um projeto específico para a atuação em casos de desaparecimento, oferecendo suporte e orientação aos familiares que enfrentam essa realidade.
O Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos do Amazonas (Plid-AM) foi instituído em outubro de 2018, para integrar o Plid do Ministério Público Nacional, que conta com representantes de 25 estados, e o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (Sinalid). No Amazonas, o programa é operacionalizado pelo Núcleo de Localização e Identificação de Desaparecidos (Nulid), coordenado pela promotora de Justiça Karla Cristina da Silva Reis, com suporte do agente de apoio Alessandro Malveira e da estagiária de psicologia Thalia Nogueira.
O Plid atua em contato direto com familiares de pessoas em situação de desaparecimento, integrando uma rede que também se articula com delegacias, hospitais, serviços de acolhimento, laboratórios, institutos de identificação e órgãos de segurança de outros estados.
Por meio de uma abordagem humanizada, a equipe contata os responsáveis pelos boletins de ocorrência, normalmente familiares, e busca informações adicionais e complementares, que em grande parte dos casos não estão incluídas nos registros. O Plid também realiza o acompanhamento das ocorrências, faz encaminhamentos, registra todos os desaparecimentos no Sinalid e promove a divulgação dos casos de desaparecimento.
“Nós atuamos como um nó de uma rede de informações, então tem a família, a delegacia, os institutos da polícia científica e técnico-científica. Têm informações sobre as vítimas que raramente vêm nos boletins de ocorrência, como marcas, cicatrizes e tatuagens, principalmente quando os registros são feitos em delegacias que não são especializadas. É quando nós entramos em contato e estendemos essa identificação. A partir disso, são feitas as sindicâncias, que são os registros dos casos no Sinalid”, explicou o servidor Alessandro Malveira.
De acordo com informações da equipe, os casos mais recorrentes se referem a desaparecimentos voluntários, quando, por vontade própria ou indução, a pessoa se afasta do convívio familiar sem avisar. Essas situações afetam principalmente adolescentes do gênero feminino. “Nesse caso, a maioria retorna. Nós também recebemos muitos casos de pessoas em situação de rua e dependência química, geralmente associados entre si. Também há pessoas com transtornos mentais e idosos, na maioria das vezes, que já tem algum déficit cognitivo, saem de casa, não sabem voltar e se perdem”, comentou
Com o intuito de localizar as vítimas ou identificar os corpos, o Plid atua em parceria com os órgãos de segurança pública, institutos da polícia técnico-científica — como o Instituto Médico Legal (IML) e o Laboratório de Biologia e Genética Forense (LBGF) da Polícia Civil —, a Polícia Federal, a mídia e setores da iniciativa privada, buscando levar mais visibilidade aos casos.
Desde o início das atividades, o Plid tem um convênio firmado com a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM), o que possibilita o recebimento dos boletins de ocorrência registrados nas duas delegacias que investigam desaparecimentos — a Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), para casos envolvendo pessoas até 18 anos, e a Delegacia Especializada em Ordem Política e Social (Deops).
Com as ocorrências recebidas das delegacias, o Plid reúne os dados e adiciona ao Sinalid, plataforma nacional e integrada de informações criada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e gerida pelos MPs estaduais, permitindo, além do cadastro de desaparecidos, a articulação entre agentes de segurança pública e saúde para localizar pessoas em outros municípios e estados.
Diariamente, o programa recebe do IML os relatórios de plantões com corpos não reconhecidos e reivindicados, além de fotos para a análise de características que contribuem para a identificação, como a presença de tatuagens.
Há também uma parceria com o Instituto de Identificação Anderson Conceição de Melo (IIACM), para identificar pessoas vivas que estão em situação indicativa de desaparecimento e institucionalizadas em casas de acolhimento ou hospitais, mas sem nenhum tipo de documento ou capacidade para realizar a própria identificação. O Plid aciona o IIACM para que o instituto realize a coleta de biometria e faça o reconhecimento do indivíduo.
A divulgação dos desaparecidos é viabilizada por parcerias firmadas via convênios com o Plid-AM, o que permite a publicação de cartazes contendo imagem, identificação e informações de contato. O programa mantém uma parceria com o Portal D24am, que divulga diariamente cards com os desaparecidos no site.
O projeto também administra o perfil @plidmpam no Instagram, onde faz divulgação regular dos cartazes de pessoas com o paradeiro desconhecido.
Desde 2024 até o ano de 2029, vigora um acordo de cooperação técnica entre o MPAM e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram), possibilitando a divulgação dos casos em monitores instalados dentro de terminais e de ônibus, mídia conhecida como “TV Busão”. O Sinetram também disponibiliza informações de dados cadastrais e utilizações recentes do transporte coletivo por usuários com paradeiro desconhecido, com objetivo de auxiliar na localização.
No ano passado, o Plid instaurou o total de 720 sindicâncias sobre casos de desaparecimento no Amazonas. No primeiro quadrimestre de 2025, o programa realizou 224 sindicâncias e 29 pedidos de localização em hospitais, quando há entrada de pessoas sem documento ou acompanhante. Correspondente a esse período, foram 169 casos “finalizados”, quando ocorre a localização da pessoa ou identificação do corpo.
No segundo quadrimestre do ano, as atividades do Plid registraram 251 sindicâncias instauradas e 220 finalizadas, com 26 pedidos de localização em hospitais. Já nos últimos quatro meses de 2025, foram instauradas 245 sindicâncias, com 21 solicitações de localização em hospitais e 163 casos solucionados.
A estagiária Thalia Nogueira é responsável por acionar os números registrados nas ocorrências e verificar o andamento da situação, se o caso denunciado foi solucionado, com o retorno da pessoa, ou se ainda está em aberto.
“Quando nos avisam que a pessoa ainda está desaparecida, a gente solicita mais informações sobre o caso, como características físicas, roupas que a pessoa estava usando quando foi vista pela última vez e afins. Também questionamos se há algum motivo que pode explicar o desaparecimento, como conflito intrafamiliar que ocasionou um sumiço voluntário, ou envolvimento com crime organizado, uso de medicamentos, substâncias químicas e situações correlatas. São informações que são essenciais para a investigação, mas que demandam muito cuidado na condução da conversa, pois são situações extremamente sensíveis”, relatou.
Por meio desses contatos e da articulação com outros órgãos, o Plid já auxiliou na resolução de diversos casos, como o desaparecimento do irmão da dona de casa Benedita Silva. “Há um ano, meu irmão desapareceu. Ele morava em Manaus, estava sozinho e nós somos de Rio Branco, no Acre. Sou muito grata por todo o suporte, apoio e divulgação que foi feita pelo Plid. Minha família ficou desesperada, angustiada e receber essa ajuda, ainda mais estando à distância, nos confortou. Foi graças a esse suporte que conseguimos encontrar meu irmão e hoje ele está com a gente, fazendo tratamento”, contou.
O Plid viabilizou, ainda, a resolução de um caso de desaparecimento que já se estendia há quatro décadas. A partir do contato do Hospital Delphina Aziz, solicitando ajuda para encontrar os familiares de uma pessoa idosa, em situação de rua, sem documentos e com falas desconexas, o programa fez uma busca minuciosa, inclusive em boletins de ocorrência registrados em outros estados, e conseguiu encontrar informações sobre o estado de origem e localizar a família.
“Há 43 anos, minha irmã desapareceu. Desde então, não tínhamos ideia do que tinha acontecido, procuramos pela cidade, até em outras, mas nunca encontramos informações. Minha outra irmã fez o registro dela no sistema de desaparecidos e foi então que conseguimos localizá-la, com ajuda do MP. É uma história de muito sofrimento que agora teve um final feliz”, declarou o familiar da vítima, Edinaldo Jardim.
Em 2025, o Plid também atuou ativamente na “Campanha Nacional de Coleta de DNA”, acionando as famílias e elaborando os encaminhamentos para que materiais genéticos fossem coletados para uso em exames de identificação.
A atuação do Ministério Público do Amazonas para a resolução desses casos, via contato direto com pessoas envolvidas e por meio de convênios e parcerias, busca localizar com vida, identificar os mortos e solucionar situações que afligem a sociedade e inquietam as famílias e amigos dos desaparecidos.
A desinformação e o senso comum de que é necessário esperar 24 horas após o sumiço para prestar queixa pode, na verdade, prejudicar a localização da pessoa desaparecida. As primeiras horas são cruciais para o sucesso nas buscas, de forma que a ocorrência de desaparecimento deve ser feita assim que a ausência for percebida.
Para mais informações:
E-mail:
Telefone: (92) 3655-0755
Endereço: Sede do Ministério Público do Amazonas - Avenida Coronel Teixeira, 7995, Nova Esperança
Confira as postagens com os desaparecidos na página do Plid no Instagram: @plidmpam
Texto: Vanessa Adna
Foto: Freepik




